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Um coração bem humorado é prova viva de que ali mora um Deus que ressuscita diariamente. O humor abre as portas do coração para o contentamento e a “vida em abundância”. Ele cura e liberta das tensões e dos sofrimentos cotidianos; faz-nos transcender à indiferença e abre espaço ao diálogo cordial e sereno. O bom humor faz-nos recordar que, apesar de todos os percalços do caminho, a vida tem sentido.

Em toda a história do cristianismo é possível encontrar homens e mulheres que souberam anunciar a mensagem e Jesus com ousadia e bom humor, embora nem sempre compreendidos. É o caso de são Francisco de Assis, são Tomas Moro, santa Teresa D´Ávila, são Felipe Neri, são João Bosco, são João XXIII e tantos outros. Homens e mulheres de rostos iluminados que parecem ter aprendido na escola do próprio Mestre que um cristão não pode ter a cara triste, ao contrário, deve servir ao Senhor com alegria.

Segundo James Martin, sj, os santos sabiam adotar uma perspectiva a longo prazo, eram capazes de rir do absurdo (e de si mesmos), e colocavam sempre sua confiança em Deus. Eram, em sua maior parte, homens e mulheres que se conheciam bem a si mesmos e que, frequentemente, haviam passado por grandes dificuldades na vida... E, não obstante seus fracassos, cultivavam um profundo sentido de humor.

Contra o catolicismo moralmente sério de sua época, assim dizia Teresa a suas irmãs: “Uma monja triste é uma má monja. Temo mais uma irmã infeliz que a uma multidão de espíritos malignos... Que sucederia se ocultássemos o pouco de sentido de humor que temos? Utilizemo-lo cada uma de nós para alegrar os demais... De devoções absurdas e santos amargados, livra-nos, Senhor”.

Para o Papa Francisco, “o cristão é um homem e uma mulher da alegria, um homem e uma mulher com a alegria no coração. Não existe cristão sem alegria! É feio ver cristãos com a cara virada, cristãos tristes, é feio, feio, feio… Não são plenamente cristãos. Acreditam que são, mas não o são totalmente”.

Outros papas, muito bem-humorados, também ocuparam a cátedra de Pedro; é o caso de são João XXIII, que aconselhava os fiéis: “Sê suficientemente humilde para não levar-te demasiado a sério, para não dramatizar sem razão, para saber rir dos teus próprios limites, debilidades e manias e também das dos demais e, ainda sim, continuar amando-te e amando-lhes”.

O jeito “descolado” de Francisco viver a sua fé em Cristo, dentro e fora das paredes do vaticano, tem cativado a muitos (exceto os mal-humorados). Sua maneira leve e sutil de comunicar a mensagem de Jesus, além de aproximar as pessoas, em certo sentido, ajuda a atenuar o estereótipo de que as “autoridades religiosas”, e até mesmo os santos, são pessoas melancólicas e mal-humoradas.

Os que conheceram Francisco antes de ser papa testemunham sua leveza de humor. Assim afirmou, certa vez, um jesuíta que conheceu Bergoglio quando era ainda Cardeal de Buenos Aires: “Quando ele está conversando contigo, ele te faz se sentir a pessoa mais importante do mundo. Te dá atenção, olha nos olhos e te escuta com o coração”. De igual modo testemunhou o padre Alexandre Awi, ISch, Secretário do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida:

“A gente se sente importante e valorizado justamente por isso, porque ele te escuta, e ele quer saber tua opinião, ele te leva em conta, conversa, troca ideias... Cada Papa tem um jeito muito peculiar de liderar a Igreja. E o jeito de Francisco passa por esse sentido de humor, por essa leveza e alegria contagiantes. A surpresa se deve justamente ao fato de concebermos a figura papal como aquela autoridade muito séria e reservada. A postura de Francisco, de certa maneira, desconstrói essa ideia”.

Certa vez, o Papa Francisco estava com os fiéis na Praça de São Pedro, quando a jornalista mexicana Valentina Alazraki aproximou-se dele e perguntou se ele estava preparado para a visita a seu país, Francisco olhou-a com ar de seriedade e disse-lhe: “Não sabias que a viagem foi adiada?”. Vendo sua cara de assustada, o Papa tocou em seu ombro e começou a rir. Tratava-se de uma brincadeira. Outra vez, um dos fiéis, também mexicano, gritou do meio da multidão: “Te esperamos em breve no México!”. Eis que o Papa Francisco responde: “Com tequila ou sem tequila?”. “Com muita tequila”, respondeu o mexicano. Quanta leveza e naturalidade! Quanta humanidade em palavras e gestos tão simples e próximos!

Depois que foi eleito Papa, Bergoglio encontrou alguns coirmãos Jesuítas que lhe disseram: “Estamos muito contentes com sua escolha e estamos rezando por você”. Francisco os interrompe e pergunta com todo bom humor: “Para que avance ou retroceda?”, e riram juntos. Talvez a brincadeira mais falada nos meios de comunicação, acerca do humor de Francisco, foi quando ele perguntou a uma jornalista: “Você sabe como se suicida um argentino? Não, não sabe? Ele sobe encima do seu ego e daí se atira abaixo”.

O bom humor aproxima as pessoas e cria unidade na diferença. É a linguagem da alma que nos faz ressuscitar dos sepulcros diários transformando a crueza da vida na mais bela poesia do Espírito. E, como diz as Escrituras Sagradas, “coração alegre ajuda a sarar, mas espírito abatido seca os ossos” (Prov 17,22).

Afinal, de onde Francisco tira tanta leveza e alegria? Num encontro com o Movimento de Schoenstatt, em outubro de 2014, perguntaram-lhe sobre seu “segredo” para viver com serenidade, apesar dos desafios e dificuldades. Após uma pequena pausa, ele brinca: “Sabe que não faço a mínima ideia!”. E, logo em seguida, começa a recordar, com os olhos cheios de mansidão:

“Deus me deu a graça de ter uma grande confiança. A audácia é uma graça. É coragem. Coragem para seguir adiante e aguentar o peso da luta. Muitas vezes temos confiança num médico: e isto é bom, porque o médico existe para nos curar; temos confiança numa pessoa: os irmãos e as irmãs podem ajudar-nos. É bom nutrir entre nós esta confiança humana. Contudo, nós esquecemos a confiança no Senhor: esta é a chave do sucesso da vida. A confiança no Senhor! Confiemos no Senhor!”.

O humor e o riso são verdadeiras virtudes e, portanto, fundamentais para a vida espiritual. Infelizmente, muitas vezes, estas virtudes estão ausentes das instituições religiosas e das ideias que os bons crentes têm da religião.

Em mais de uma ocasião, o Papa Francisco citou uma oração que costuma rezar diariamente e que, segundo ele, todo bom seguidor do Mestre da alegria deveria rezá-la e pô-la em prática, é a “Oração do bom humor”: “Far-nos-á muito bem recitar frequentemente a oração de São Tomás More. Eu a rezo todos os dias; faz-me bem!”.

“Senhor, dai-me uma boa digestão, mas também algo para digerir.

Dai-me a saúde do corpo, mas também o bom humor, necessário para mantê-la.

Dai-me, Senhor, uma alma simples, que saiba aproveitar tudo o que é bom e que não se assuste quando o mal chegar, e sim que encontre a maneira de colocar as coisas no lugar. Dai-me uma alma que não conheça o tédio nem os resmungos, suspiros e lamentos, e não permitais que eu me atormente demais com essa coisa demasiada incômoda chamada “eu”. Dai-me, Senhor, senso de humor! Amém”.

Quando o ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, perde a capacidade de sonhar e crer no amanhã, ele corre o risco de cair em um profundo vazio existencial. Viver é alimentar-se de utopias em cada alvorecer, mas sem perder o realismo da própria existência. É acreditar nos sonhos de amanhã como resposta das escolhas de hoje. Quando não há utopias, a vida se torna um peso, e as relações, um verdadeiro tédio. “O cristão não pode ser pessimista!”, diz o Papa, “não pode ter uma cara de quem parece num constante estado de luto. Se estivermos verdadeiramente enamorados de Cristo e sentirmos o quanto Ele nos ama, o nosso coração se incendiará de tal alegria que contagiará quem estiver ao nosso lado”.

Um Papa com sentido de humor é capaz de ressuscitar o mundo... Da indiferença, do medo, do sofrimento isolado. A leveza de Francisco é reflexo de sua grandeza de espírito e de sua profunda intimidade com o Senhor. É o que o move a viver com liberdade, e a dizer, com toda convicção: “Uma pessoa jubilosa, bem-humorada e autoirônica consegue ser amável, mesmo nas situações difíceis. É alguém que sabe ser paciente nas tribulações e não se rende ao desespero, ainda que tudo pareça perdido. Quanto bem nos faz uma boa dose de são humorismo!”


*Francisco Galvão é júnior paulino da Província do Brasil.

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